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sábado, 12 de janeiro de 2019

Eurobarómetro 2018



No dia 21 de março de 2018, a Comissão Europeia publicou o Eurobarómetro Especial 472 sobre Desporto e Atividade Física (com dados recolhidos em dezembro de 2017).

No estudo verifica-se que em Portugal 68% da população nunca faz exercício ou desporto, sendo que esta percentagem aumentou em relação aos dados de 2013 em 4%. Globalmente, na União Europeia a 28 países, verifica-se a tendência de continuar a aumentar o número de pessoas que nunca faz exercício ou desporto visto que em 2009 o valor era de 39% e em 2018 o valor é de 46%.

O número de mulheres que nunca pratica qualquer tipo de desporto ou exercício, mesmo que seja raramente é de 78% em Portugal e de 64% na Europa a 28 países.

Dos 32% da população que pratica desporto ou exercício em Portugal, com algum tipo de regularidade ou raramente, 47% deles gostam de o fazer ao ar-livre ou em parques. Portugal segue a tendência dos restantes países da União Europeia onde 40% gosta de praticar atividades num contexto mais “informal” , optando por o fazer ao ar-livre.

A principal razão para as pessoas praticarem desporto ou exercício em Portugal, segundo o Eurobarómetro de 2018, é para melhorar o estado de saúde (51% dos portugueses, sendo que no resto da União Europeia a 28 é de 54%). O estudo diz também que a principal barreira identificada pelos portugueses para não praticar é a falta de tempo, sendo que 43% dos inquiridos deram esta resposta, na União Europeia a mesma resposta foi dada por 40% dos inquiridos.

Relativamente à oferta da possibilidade de prática desportiva, 67% dos portugueses dizem que no local onde moram existe oferta de prática desportiva, na União Europeia a 28 o resultado foi de 74%.

Relativamente à oferta por parte de clubes desportivos ou outros prestadores de serviços desportivos a nível local, 63% dos portugueses tende a concordar que existe oferta local para poderem praticar algum tipo de exercício ou desporto. A média europeia neste indicador é de 73%.

Curiosamente e apesar de vários esforços por parte da Comissão Europeia com a introdução da Semana Europeia do Desporto (desde setembro de 2015) e da campanha “#BeActive”, 39% dos Europeus concorda que as autoridades locais (Municípios, Juntas de Freguesia, etc) ainda não fazem o suficiente relativamente à promoção da atividade física e do desporto junto das populações. Em Portugal este indicador é de 44%.


Fica a questão: estamos a fazer o suficiente para promover a prática do desporto?


Escrito originalmente por Paulo Jorge Araújo no Jornal Nordeste (08/01/2019)

Técnico Superior de Desporto, Licenciado em Ciências do Desporto pelo IPB e Especialista em Gestão Desportiva pela Fade-UP

domingo, 30 de setembro de 2018

De onde veio e para onde vai o desporto transmontano?


O Desporto como nós o conhecemos hoje nasceu em Inglaterra com a Revolução Industrial. Antes disso não existia a chamada “sociedade do tempo-livre”, pois todas as actividades eram geridas de acordo com as horas de sol, sendo que principalmente na agricultura trabalhava-se de sol-a-sol.

Aquela velhinha ideia que o desporto vem desde a Grécia Antiga é um erro histórico grave pois os gregos da antiguidade clássica não praticavam desporto, treinavam e competiam mas o seu objectivo principal era realizar uma preparação para o combate militar. As primeiras provas dos Jogos Pan-helénicos incluíam corridas com equipamentos militares, tais como escudos, espadas e capacetes. Assim sendo, o treino e a competição, eram nada mais nada menos que um meio de preparação militar, que substituía a guerra quando imposta a Trégua Sagrada e que colocava as cidades-estado não a lutar entre si directamente, mas sim indirectamente através da competição nos Jogos Pan-helénicos.

O Barão Pierre de Coubertin achou graça ao que os gregos da antiguidade clássica faziam e basicamente “copiou a ideia”, sendo que as práticas competitivas que ele incluiu nos Jogos Olímpicos eram, em grande parte, algumas das modalidades desportivas que nós conhecemos hoje e assim sendo em 1896 organizou em Atenas a 1ª Olimpíada da era Moderna. 

Existem jornais do início do Século XX que falam de conferências realizadas por “Sportsmen” (aquilo que hoje chamamos vulgarmente de desportistas) em clubes sociais das capitais de distrito do interior do nosso país. Estes clubes eram organizações onde se realizavam bailes, jogava-se às cartas, as elites conviviam e falavam dessa moda que era o “Sport”, que estava muito em voga na Inglaterra. Estas entidades eram, claramente, uma imitação dos clubes de sociedade britânicos e em muitos casos foi ali que se começaram a dar as primeiras aulas de ginástica.

 Os primeiros clubes desportivos surgem em Trás-os-Montes e Alto Douro apenas no início dos anos vinte. Em 1920 é fundado o Sport Clube de Vila Real e em 1926 nasce o Sport Clube de Mirandela. Seja como for estes clubes desportivos transmontanos são fundados com alguns anos de atraso em relação aos primeiros clubes desportivos nacionais. Veja-se os casos do Oporto Cricket and Lawn Tennis Club fundado em 1855, da Real Associação Naval fundada em 1856 e por exemplo do Ginásio Clube Figueirense fundado em 1895. 

Segundo o Professor António José Serôdio da UTAD, no início do século o ciclismo e o boxe eram desportos muito praticados e o futebol pouco tempo depois passou a ser o desporto dominante. Os clubes desportivos surgiram em grande parte dos concelhos transmontanos como forma de contestação ao poder económico, político e cultural que as sedes de distrito representavam em relação a concelhos de menor importância. O clube desportivo e principalmente o futebol era, na época, uma forma de combater e contestar a hegemonia das capitais de distrito. Muitas vezes clubes de concelhos mais pequenos contrataram jogadores do litoral, e até de Espanha, para jogar contra os “opressores”, na época os regulamentos assim o permitiam. Com estas rivalidades surgiram diversas vezes problemas de desordem pública que obrigaram à intervenção da polícia. 

Trás-os-Montes e o Alto Douro sentiram durante muitos anos o fenómeno do êxodo rural e a partir dos anos 80 do século passado esta situação intensificou-se, quer no caso dos retornados de África após o 25 de Abril, quer de outros que já habitavam na região e que tiveram que emigrar ou ir em busca de melhores condições de vida nas cidades do litoral. A situação é grave e entre 2001 e 2014 a região perdeu cerca de 36 000 habitantes, se tivermos em conta que em 2014 o número de idosos já duplicara em relação em relação ao número de crianças entre os 0-14 anos. O cenário é, na minha opinião, negro pois sem pessoas não há desporto e a demografia ilustra bem qual é a força de uma região.

 Nascem cada vez menos crianças, logo na minha perspectiva o desporto competitivo e os clubes desportivos vão passar um mau bocado no futuro, pois não vai haver praticantes jovens suficientes para toda a oferta que existe actualmente e existem mesmo clubes em localidades mais pequenas que vão ter que fechar a porta a médio prazo. Penso que a longo prazo os grandes jogos desportivos colectivos como o futebol de onze vão acabar e em algumas localidades com menos população a tendência será haver desenvolvimento de alguns desportos individuais e da prática do futsal, visto que são necessários menos elementos para fazer uma equipa. 

Posto este cenário, parece-me que a longo prazo quem vai dominar as actividades desportivas em Trás-os-Montes vai ser o segmento dos idosos e dentro destes vão estar em particular destaque os que estão institucionalizados pois esses integram em definitivo a já anteriormente referida “sociedade do tempo-livre”, que nasceu com a Revolução Industrial. 

Escrito por Paulo Jorge Araújo Técnico Superior de Desporto, Licenciado em Ciências do Desporto pelo IPB e Especialista em Gestão Desportiva pela UP.

Publicado originalmente em Jornal Nordeste

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

WORLD FOOTBALL SUMMIT EM MADRID


Recentemente estive num congresso sobre futebol chamado “World Football Summit”, em Madrid, um evento bastante mediático e que junta algumas das mais importantes figuras do futebol europeu e mundial. Ao contrário do “Football Talks”, organizado pela Federação Portuguesa de Futebol, o “World Football Summit” abordou mais temáticas relacionadas com a multimilionária indústria das ligas profissionais de futebol, tanto que este evento teve como principal parceiro a Liga Espanhola de Futebol (LaLiga).

Para mim o evento além de me possibilitar o estabelecimento de contactos, foi claramente uma oportunidade para reflectir sobre o trabalho que fazemos no dia-a-dia e o contributo que é dado pelas organizações sem fins lucrativos como as federações, associações, clubes, o próprio estado e as autarquias locais para toda a estrutura do “modelo europeu de desporto”.
Na verdade, as ligas desportivas profissionais são organizações privadas que geram muito dinheiro, mas em termos estruturais são débeis pois edificam-se sobre uma estrutura de “desporto amadora” que ou é apoiada pelos organismos do estado, que tutelam o desporto e as autarquias, ou então não vai haver no futuro atletas para alimentar essa indústria porque quem faz acontecer o desporto todos os dias são os actores locais (clubes e autarquias).

Na verdade, não existe a possibilidade de haver ligas profissionais sem que o estado cumpra com a função de permitir que todos os cidadãos tenham oportunidade de ter acesso à prática desportiva. Em Portugal isso está consagrado no Artigo 79º da Constituição da República. Nesse sentido deixem-me valorizar o papel e o trabalho que é feito nas autarquias locais na área do desporto pois sem elas não existiam financiamentos, instalações, transportes e inclusive a promoção do desporto. Este trabalho é feito todos os dias em parceria com as unidades básicas do associativismo desportivo que são os clubes, que por sua vez são sócios das associações de modalidade, estas por sua vez membros das federações nacionais e as federações nacionais por sua vez são filiadas internacionalmente.

No que diz respeito a questões financeiras, felizmente, já foram dados alguns passos importantes pela FIFA que, em 2010, desenvolveu um mecanismo de solidariedade que reverte a favor dos clubes de formação dos jogadores. Os clubes de formação recebem uma percentagem quando um jogador (formado nesse clube) é vendido para outro clube, e, em todas as transferências efectuadas reverte sempre uma percentagem referente ao escalão que o jogador frequentou nos clubes onde se formou entre os 12 e os 23 anos. Mas isto não chega para ajudar a funcionar todo o sistema e penso que podiam ser dados ainda mais alguns passos significativos se cada um dos atletas profissionais, treinadores, gestores, sociedades desportivas e as ligas profissionais fossem taxados nas suas receitas anuais e esse valor reverte-se directamente a favor dos organismos do estado que tutelam o desporto, visto que todos eles beneficiaram no seu percurso de um sistema que é no geral suportado pelo contribuinte.

Alguns clubes, ligas e atletas profissionais já fazem o seu contributo financeiro para organizações como a UNICEF, como é o caso do FC Barcelona, e também fundações que promovem o desporto, mas isto não é nenhuma imposição legal e muitos dos profissionais fazem-no porque é uma forma de aparentar que estão preocupados com os outros. Como é lógico isto não é verdade para todos. Alguns estão efectivamente preocupados, mas também acredito que muitos não sintam que têm algum tipo de responsabilidade social e apenas o fazem porque é “bonito” ou está na “moda” ajudar os desafortunados. Infelizmente esta é a cultura vigente entre muitos dos privilegiados que têm sorte em facturar milhões numa indústria que só existe porque o contribuinte paga os seus impostos.


Escrito por Paulo Jorge Araújo in Jornal Nordeste 24/10/2017


Técnico Superior de Desporto, Licenciado em Ciências do Desporto pelo IPB e Especialista em Gestão Desportiva pela UP

sábado, 22 de abril de 2017

A “Armada Transmontana” no Football Talks 2017

Decorreu entre 22 e 24 de Março no Centro de Congressos do Estoril a 3ª edição do Football Talks, um evento que apesar da sua curta história é já um dos mais prestigiados congressos sobre Futebol a nível Mundial.

As Associações de Futebol de Bragança e Vila Real, e muito bem, fizeram-se representar no evento pelos respectivos Presidentes, sendo que o Director Técnico da Associação de Futebol de Bragança, o Prof. Sílvio Carvalho, foi também um dos “valentes transmontanos” que marcou presença no evento, a par de Gilberto Vicente actual Treinador de Futebol no Grupo Desportivo do Cachão e de mim próprio enquanto profissional na área da Gestão do Desporto.

A “armada transmontana” (como fomos gentilmente apelidados) presente no Football Talks 2017 era constituída por cinco pessoas com responsabilidades no âmbito do desenvolvimento do Futebol e do Desporto em Trás-os-Montes.

Mas porque razão fizemos nós questão de estar presente neste evento?

A resposta é bastante simples, porque estas cinco pessoas são apaixonadas pelo Desporto em geral e pelo o Futebol em particular e nesse sentido estas mesmas pessoas querem estar na vanguarda no que diz respeito a todo o conhecimento que possa existir para que no desempenho das suas funções possam contribuir de forma efectiva para o desenvolvimento do Desporto a nível regional e simultaneamente das organizações desportivas que representam.

E então o que é que fomos lá aprender de tão extraordinário assim? Na verdade, o que aprendes em termos de volume é pouco, o principal conhecimento adquirido neste evento, na minha perspectiva, está relacionado com o perceber qual é o alinhamento estratégico entre a FIFA, a UEFA, as outras Confederações e as respectivas Federações Nacionais.

Neste momento a FIFA está claramente preocupada em recuperar a sua credibilidade e elegeu o homem certo para o lugar certo, sendo que a “boa governação” é claramente o tema prioritário para esta organização desportiva e todas as Confederações que a constituem. Por isso, as Federações Nacionais, as Associações Distritais e os Clubes também vão ter que no curto prazo implementar as medidas de “boa governação” da FIFA, porque o que está em jogo é a credibilidade do próprio Futebol.

O tema da viciação de resultados é muito importante e as apostas desportivas vieram contribuir para um clima de constate suspeição, principalmente no Futebol dos escalões jovens e não profissional, pois facilmente os vários intervenientes directos são corrompidos.

O tema do vídeo arbitro está resolvido e vai mesmo avançar, porque como diz o lendário Pierluigi Collina, o árbitro é a única pessoa no estádio que actualmente não tem acesso à tecnologia que lhe permita verificar quase “em tempo real” se a sua decisão foi certa ou errada e isto é uma tremenda desvantagem em relação aos 60 ou 70 mil presentes no local e aos milhões de telespectadores em casa.

O Futebol feminino veio para ficar e não existe qualquer dúvida que está em expansão a nível mundial, muito graças ao grande impulso e financiamento proveniente da das políticas instituídas pela FIFA.

Curioso também, foi o facto de pessoalmente ter reparado que a grande maioria dos chamados “comentadores desportivos”, que todos os dias poluem a mente de milhares de portugueses, com informação sem qualquer tipo de “conteúdo credível” e que contribuem para um clima muito negativo em redor dos temas importantes do “desporto rei” não terem sequer marcado presença neste evento de qualidade mundial.

Saudações Desportivas
Paulo Jorge Araújo

Artigo Publicado in Jornal Nordeste - 18/04/2017



quinta-feira, 30 de junho de 2016

Qual é o legado de Cruyff e o que é que um “pequeno clube” pode aprender com ele?



Sou algo suspeito ao abordar este assunto porque Johan Cruyff é uma das minhas maiores referências desportivas enquanto crescia, tal como o é o AFC Ajax vencedor da Liga dos Campeões em 1995, o “futebol total” e o mentor de toda esta verdadeira cultura do futebol holandês, o lendário Rinus Michels.

Segundo Gustavo Pires, Professor na Faculdade de Motricidade Humana em Lisboa, a cultura de uma organização desportiva é determinada pela sua filosofia de acção que se expressa na identidade cultural que anima e congrega as pessoas que a ela das mais diversas maneiras se ligam. Pois é mas isto não era um artigo de opinião sobre futebol? Era e é, pois o “futebol total” de Rinus Michels e o AFC Ajax foi ambiente cultural onde cresceu e se desenvolveu Johan Cruyff e posteriormente outras lendas do futebol mundial como Frank Rijkaard, Marco Van Basten, Ronald Koeman ou Dennis Bergkamp (a lista de talentos oriundos do Ajax é vasta). 

Johan Cruyff foi um dos mais fieis discípulos e intérpretes do “futebol total” de Rinus Michels, sendo que ambos trabalharam juntos mais de 10 anos, enquanto jogador e treinador, entre as passagens de ambos pelo AFC Ajax, FC Barcelona e a “Laranja Mecânica” do Mundial de 1974. Cruyff termina a sua fabulosa carreira como jogador em 1984 e entre 1985 e 1988 segue os passos do seu mentor e vai treinar o AFC Ajax. Johan Cruyff conquista em 1986-87 a Taça das Taças e a sua equipa é somente constituída por alguns dos mais talentosos futebolistas de sempre: Marco Van Basten, Frank Rijkaard e Dennis Bergkamp. Estes jogadores, assim como muitos outros que se seguiram (como Patrick Kluivert, Clarence Seedorf e Edgar Davids), são provenientes da academia do AFC Ajax que privilegia a qualidade individual e o futebol criativo baseado na velocidade e na técnica (em inglês “TIPS”: technique, insight, personality and speed) no entanto, os aspectos tácticos são fundamentais e todas equipas da formação aprendem a jogar em mais que um sistema táctico sendo que é privilegiada a aprendizagem do famoso “3-4-3” soberbamente interpretado pela equipa principal do clube. 

Em 1988 Johan Cruyff muda-se para o FC Barcelona e não tardou a contribuir de forma efectiva para a aplicação de todo um conjunto de ideias provenientes do AFC Ajax, que ajudaram a melhorar e a transformar a academia do FC Barcelona numa verdadeira fábrica de talentos. Actualmente a academia do FC Barcelona é considerada uma das melhores do mundo, esta mesma academia formou Pep Guardiola, que também foi treinado por Cruyff e que por sua vez afirma que o “mestre holandês” foi uma das pessoas mais influentes do futebol europeu nos últimos 40/50 anos, tendo contribuído com as suas ideias para a definição de um estilo de jogo em dois dos maiores clubes do velho continente. Para Pep Guardiola não era possível existir o FC Barcelona de hoje sem as ideias de Johan Cruyff, o clube enquanto organização desportiva existiria, mas a filosofia que há mais de 25 anos dá suporte ao modelo de jogo e à identidade do jogar do FC Barcelona não, ou seja, resumidamente o mundialmente famoso “tiki-taka” não existiria sem Cruyff. 

Mas então o que é que um “pequeno clube” pode aprender com o legado deixado por Johan Cruyff? 
Na minha humilde opinião e seguindo (julgo eu), a linha de pensamento de Cruyff, um “pequeno clube” deverá ter que perceber primeiramente que é na sua escola de formação de atletas que deve investir (formar com qualidade tem que ser o seu “core business”). O clube deve virar-se para dentro e potencializar os seus recursos humanos (treinadores), deve definir claramente qual é que é a sua identidade, os seus valores e trabalhar com base neles, deve definir que tipo de jogar pretende e como vai ser operacionalizado esse jogar em todas as suas equipas, desde os sub-7 aos seniores. Para isso ser possível é necessário que exista, entre outras coisas, um “coordenador metodológico” que “obrigue” os treinadores das diferentes equipas a trabalhar de forma concertada e de acordo com uma metodologia previamente definida, até para que possa existir uma transição mais suave dos atletas de um escalão para o outro, até chegarem à equipa sénior. Normalmente cada treinador tende a trabalhar a sua equipa de forma independente e à sua maneira, dentro daquilo que é a sua concepção de jogo. Este facto não abona muito a favor da definição de uma filosofia de acção dentro do clube, que em casos normais conduziria à identidade cultural que é vulgarmente definida como o ADN do clube (por exemplo o “tiki-taka” é claramente parte da identidade do FC Barcelona). 

Em jeito de conclusão dizer que o que Johan Cruyff nos deixou como legado foi a sua visão e as suas ideias, para ele o futebol era um espectáculo ao qual os adeptos vão para ver a sua equipa vencer, mas também para serem entretidos, por isso ele privilegiava o futebol de ataque, com muita posse de bola e controlo absoluto do jogo. Para operacionalizar esta visão são necessários jogadores de elevada qualidade técnica, inteligência, personalidade e velocidade, como eles não nascem ensinados, temos que os formar nós dentro do nosso próprio clube. Para que isso seja possível é necessário que se possua uma filosofia de trabalho, alicerçada numa metodologia, que deverá ser transversal a todas as equipas e que permita aos jogadores da formação desaguar tranquilamente nos seniores.



 RIP #14

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Visita ao Departamento Desportivo de St. John’s


Paulo Jorge Araújo na Universidade de St. John's


No passado dia 5 de Novembro tive a oportunidade de visitar o Departamento Desportivo da Universidade de St. John’s uma das organizações desportivas que integram a 1ª Divisão da NCAA, actualmente o Departamento possui 17 equipas desportivas a disputar as competições da Conferência Big East.

A Universidade de St. John’s foi fundada em 1870, o Campus Principal fica situado em Queens, cerca de 50 minutos de carro de Manhattan.

Cheguei ao Campus às 6h45 da manhã pois às 7 horas começavam os treinos das equipas e Futebol (Soccer), Ténis e Atletismo.

Assisti também ao Treino da equipa de Esgrima que teve atletas nos Jogos Olímpicos de Londres…muitos dos atletas da equipa são Europeus.

Após o treino de Futebol tive oportunidade de conversar com o treinador principal da equipa no seu gabinete e conhecer um bocadinho da sua filosofia enquanto treinador…fiquei a saber que foi Campeão da NCAA em 1996 com St. John’s e já fez um estágio com a equipa no Algarve.

Visitei as instalações, são excelentes mas não são nada de outro mundo…tive à conversa com o Director Assistente e fique a saber que a escola tem um orçamento de 26 milhões de dólares para o Desporto.

 Conheci parte do Staff…e segundo me foi dito das cerca de 100 pessoas que lá trabalham todas são profissionais, ou seja, o Staff é profissional os atletas amadores (em Portugal isto era impensável).

O Departamento não tem lucro, apesar de ter um contrato com a Nike, Transmissões Televisivas na ESPN e alugar o Madison Square Garden, o break-even no MSG é aos 6 mil adeptos, mas eles costumam ter em média 14 mil nas bancadas!

O Marketing é bastante agressivo…o suficiente para ter publicidade aos jogos de Basquetebol em Times Square!

Em St. John’s o "Basquetebol é Rei" e o programa já colocou cerca de 60 jogadores na NBA…alguns dos mais famosos foram Chris Mullin, Mark “action” Jackson e Metta World Peace (Ron Artest)…na época passada a 15ª escolha do Drarft da NBA era de Saint John’s.

A equipa feminina está actualmente em 14º lugar no Ranking Nacional, o Programa de Basquetebol da Universiade de St. John's é o 7º com maior número total de vitórias nos EUA!!!

Antes de vir embora tive oportunidade de assistir ao treino da equipa masculina de basket que é liderada pelo famoso Steve Lavin que já orientou a UCLA e foi comentador na ESPN.

Quanto ao treino de Basquetebol…uiii...a intensidade é muito elevada, os jogadores são extremamente atléticos e o treinador principal tem um staff que nunca mais acaba…(risos)

A exigência é elevadíssima, a equipa ia ter jogo no dia seguinte contra a Universidade de Concórdia (fui convidado a ir ver o jogo) …trabalham muito as jogadas de 5 para 5 mas com uma intensidade de treino e complexidade elevadíssimas…os jogadores apesar de serem miúdos com 18, 19, 20, 21 anos estiveram sempre concentradíssimos durante todo o treino. Não me foi permitido filmar ou tirar fotos durante o treino e é compreensível visto que para assistir ao mesmo tivemos que ter ordem do “Head Coach” Steve Lavin.

Gostei muito de passar lá o dia…e aprender um bocadinho sobre a cultura desportiva americana e sobre as tradições de St. John’s, que não é actualmente uma das escolas mais dominantes da NCAA mas é uma das que tem um passado com “mais de 100 anos de excelência”... como eles dizem...We are…St. John’s !!! (a minha “alma mater” americana)


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

FC Barcelona e o Futebol Total Holandês




Hoje todos estamos rendidos à qualidade de jogo do FC Barcelona, mas esta forma magistral de jogar não apareceu por magia e não foi o Barcelona a primeira equipa a operacionalizar esta concepção de jogo que têm as suas raízes no "Futebol Total Holandês".

O Futebol Holandês é especial e é desde há muitos anos o mais desenvolvido do planeta na minha humilde opinião. Graças ao "Futebol Total" a Holanda é uma verdadeira "fábrica de talentos certificada" desde os anos 60.

Os mentores de toda esta filosofia foram os ex-treinadores do Ajax, Jack Reynolds (inglês) e Rinus Michels (holandês), este último eleito pela FIFA como o melhor Treinador de Futebol do Século XX.

O pensador e inventor do "Futebol Total", Rinus Michels, foi o pai da "Laranja Mecânica" e de toda a Escola Holandesa, talvez muita gente não tenha conhecimento mas este senhor também treinou o Barça na década de 70.

O "Futebol Total" nasce nos anos 60 e a afirmação dessa concepção de jogo surge na década de 70 com as 3 Taças dos Campeões Europeus consecutivas (71, 72, 73) pelo Ajax e duas finais de Mundiais pela Holanda (74 e 78), esta forma de pensar e jogar futebol é a imagem de marca da Holanda desde então.

Com a chegada de Rinus Michels ao Barcelona nos anos 70, são lançadas no clube as sementes da filosofia holandesa, Johan Cruijff também lá estava como jogador e no final da década de 80 também ele se torna treinador do Barça, a filosofia holandesa começa a nascer no clube e Cruijff é o grande responsável pela revolução metodológica e estrutural do Barcelona, da base até ao topo, que neste período tem como jóia da coroa o “Dream Team” que conquista a Taça dos Campeões Europeus em 1992.

Quando Louis Van Gaal e a "armada holandesa tomam conta do Barcelona" em 1997 é finalmente instituída uma autêntica Cultura do Futebol Holandês (Barçajax), sendo que no plantel jogaram entre 1997 e 2000 grande parte dos titulares da Selecção Nacional Holandesa: os irmãos De Boer, Cocu, Zenden, Hesp, Reiziger, Bogarde, Overmars, Kluivert etc. É de salientar que nesta equipa também jogava Pep Guardiola como Médio Defensivo Centro, José Mourinho também fazia parte desta Cultura Organizacional e por isso também bebeu do "Cálice Sagrado do Futebol Total"(o Barçajax) pois entre 1997 e 2000 foi adjunto de Louis Van Gaal.

Uma vez eu disse a uns jovens da minha idade que escreveram um livro sobre José Mourinho que caso o Mourinho nunca tivesse ido para o Barcelona e tivesse sido adjunto do Van Gaal dificilmente seria o treinador que é hoje, pois não tinha absorvido a Filosofia do "Futebol Total Holandês". Os rapazes chutaram a minha afirmação para canto e disseram..."ah pois, mas ele também aprendeu com outros treinadores e desenvolveu uma forma de pensar única".

Frank Rijkaard que foi jogador de Van Gaal em 1995 no Ajax foi mais um dos treinadores holandeses que passou pelo Barça e que como é lógico possuía uma filosofia alicerçada no Futebol Total que lhe valeu uma Champions em 2006.

Com Pep Guardiola como Treinador Principal do Barça desde 2007 (Capitão de equipa nos tempos de Van Gaal e producto da Cantera La Masía que tinha sido reestruturada por Cruijff) a equipa sénior do Barcelona ganha tudo que há para ganhar e afirma-se como a melhor equipa a jogar futebol no planeta, o estilo de jogo da equipa é apelidado de "Tiki-Taka" mas a sua génese é o "Futebol Total Holandês" de Rinus Michels e de todos os seus discípulos.

A Final disputada entre a Espanha e a Holanda no último mundial confirma em parte esta minha tese...

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Estes são os Duke Blue Devils



A Universidade de Duke é uma das melhores do mundo, quer Academicamente, quer no que diz respeito às suas equipas de Basquetebol.
Venceu já quatro títulos da NCAA sob o comando do lendário Mike Krzyzewski aka Coach K, actual seleccionador Americano.

Coach K é o homem responsável pelo sucesso dos Duke Blue Devils, representa a famosa Universidade desde 1980....Let´s Go Duke, let´s Go!!

quarta-feira, 17 de março de 2010

Kansas University - A Tradição dos Jayhawks



A Universidade do Kansas em Lawrence é sem sombra de dúvidas um marco importante na história do Basquetebol, primeiro porque foi lá que o inventor do Basquetebol o Dr. James Naishmith se estableceu como 1ºTreinador e postriormente Director Atletico dos Jayhawks (a tradição remonta inventor do jogo e no seu "espirito" original).

Nascida a tradição do Basquetebol na Universidade ela nunca mais deixou de crescer...além dos 5 campeonatos da NCAA já conquistados os Jayhawks produziram e continuam a produzir, ano após ano, grandes jogadores de Basquetebol...afinal a tradição ainda é o que era!

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Kim possible is NothinG

E:60 Dodgers Asst. GM Kim Ng Preview from ESPN Communications on Vimeo.


Esta senhora é uma das mais bem sucedidas gestoras desportivas dos USA...é um bom exemplo de que as boas práticas no que ao "sport management" diz respeito, não estão relacionadas com o género ou com as capacidades atléticas que se tinha ou não tinha enquanto atleta.
As “skills” necessárias para gerir então mais relacionadas com a inteligência e não com o tamanho, a força muscular, a carreira desportiva ou o sexo.
Esta senhora contraria o fenómeno chamado: "homosocial reproduction o managers”
Este fenómeno caracteriza-se pela exclusão de certos grupos sociais das posições mais elevadas no que diz respeito aos cargos de gestão nas organizações desportivas.

terça-feira, 21 de abril de 2009

A Arte da Defesa




Hoje apetece-me falar da modalidade que mais gosto e que mais influenciou o meu percurso enquanto jovem atleta, muitos dos “mestres” da arte da defesa, da rejeição e da intimidação defensiva presentes neste vídeo foram os meus heróis de juventude.
Defender bem, na minha perspectiva é mais importante do que atacar bem, pois se nós impedirmos os adversários de marcar, recuperamos mais vezes a bola para a nossa equipa, logo tendo mais vezes a bola criamos mais situações para podermos atacar e marcar mais do que os nossos oponentes.
Fazendo das palavras de Phil Jackson as minhas: “o ataque ganha jogos, mas a defesa ganha campeonatos”.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

NCAA & o Modelo de Desporto Americano



Não existem modelos desportivos perfeitos, o Americano edifica-se com base no Desporto Escolar, o Europeu tem por base o Associativismo Desportivo.
Ambos têm as suas vantagens e as suas desvantagens.

Na minha perspectiva, o modelo Americano é utopicamente melhor, pois associa dois elementos fundamentais para o desenvolvimento de competências nos jovens...sendo eles a Escola e o Desporto.
"Obriga" os atletas a ter que estudar, dotando-os com competências profissionais que ultrapassam a capacidade atlética...que lhes pode trazer ou não sucesso como profissionais de desporto.

Nós sabemos que hoje nem todos os atletas profissionais passam pelas universidades e também sabemos que muitos deles nem acabam os cursos...o modelo tem vindo a ser "corrompido"...mas o ideal seria que o atleta adquirisse uma formação que lhe confira alguma utilidade na sociedade, extra-desporto.

Pois na verdade, nem todos vão chegar a ligas profissionais...pelos mais variados motivos..mas todos vão ter que ganhar a vida para poder sobreviver.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Gomelsky...Size doesn't matter !!



Um dos maiores lideres desportivos da história do desporto, era bem baixinho ....aqui fica um video de homenagem ao Alexander Gomelsky, o treinador & presidente do "RED ARMY".

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Ricky Rubio: El Prodigio




A primeira vez que vi um vídeo sobre este miúdo foi a cerca de dois anos, numa acção de formação para treinadores, fiquei boquiaberto com a performance deste jovem jogador...fez 50 pontos na Final Europeia de Sub-16 e levou a Selecção Espanhola ao titulo Europeu.
Demonstrava já na altura uma grande maturidade, para quem apenas tinha 15 anos.
Nestes jogos olímpicos Ricky Rubio aparece a liderar, com apenas 17 anos, o ataque da Selecção Espanhola, que é somente a Selecção Campeã do Mundo.
Isto é simplesmente genial....

Mas como se pode ver no filme não seria possível este miúdo chegar a este patamar, sem toda uma estrutura de apoio, que começa na família, passa pela escola, pelo clube e termina nos amigos.

Por isso é que quando questionado se prefere ir para a discoteca até as 4 da manhã ou prefere jogar basquetebol....o miúdo, não tem dúvidas e opta pela ultima.

domingo, 17 de agosto de 2008

NBA proíbe o acesso a Hamed Ehadadi!



Os Estados Unidos da América são um país curioso, auto-intitulam-se a "land of the freedom"..(a terra da liberdade)...mas proíbem as suas equipas de assinarem qualquer tipo de contracto com um atleta Iraniano, neste caso o "Poste" de 2.18m, Hamed Ehadadi jogador da Selecção Iraniana.

Não vou discutir se esta atitude da NBA é legal ou não, pois isso é matéria para especialistas em Direito Desportivo, mas esta atitude é a meu ver esquisita pois pelos vistos "existe alguém" que disse isto aos responsáveis pela NBA:

"We have been advised that a federal statue prohibits a person or organization in the United States from engaging in business dealings with Iranian nationals.”

As 30 equipas que compõem a NBA foram proibidas de negociar com o atleta Hamed Ehadadi até ordens em contrário....

As organizações desportivas europeias agradecem...pois o atleta de 23 anos, sem clube é que não vai ficar!

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Olympic Basketball & The Redeem Team



Desde pequeno que acompanho o basquetebol...sempre foi o meu jogo...joguei alguns anos e actualmente treino crianças e jovens.

A maior parte dos meus heróis de infância foram basquetebolistas norte americanos...particularmente Michael Jordan, Magic Johnson e Larry Bird que jogaram na Dream Team original nos Jogos Olímpicos de Barcelona.

Actualmente enquanto "jovem treinador", admiro alguns treinadores norte-americanos, entre eles o "Coach K"..actual Seleccionador Americano, que é uma lenda em Duke e na NCAA.

Admiro o "Jogo Americano" e tudo que representa para aquela sociedade, mas de há alguns anos a esta parte que verifico que o jogo na Europa é tacticamente melhor.

As nossas equipas podem não ter o poderio atlético das americanas, mas são equipas mais rigorosas tacticamente, são verdadeiras equipas...são equipas que defendem...os Americanos jogam um jogo muito pobre tacticamente...parece que estão no "Play-Ground" em Nova Iorque, é só contra-ataque e brincadeira.

Curiosamente ou não, contextualizando, a equipa feminina dos Estados unidos é tacticamente superior à equipa masculina...(no meu entender)...., as meninas jogam bem melhor 5 vs 5 em meio campo.

É bem possível que a actual equipa masculina, a apelidada "Redeem Team", venha a desiludir nos Jogos Olímpicos de Pequim...penso que a Espanha, Rússia, Grécia e Argentina podem vencer os Americanos...mas o melhor é esperar para ver.



quarta-feira, 30 de julho de 2008

NBA...apostas & corrupção



A NBA foi e possivelmente é a liga desportiva mais bem sucedida do planeta, mas como se costuma dizer no nosso país: “no melhor pano cai a nódoa”….
A corrupção desportiva é um fenómeno global e como não podia deixar de ser na NBA ela também existe.

Fala-se em resultados falseados, lances-chave decididos propositadamente de forma errada para beneficio ou não de apostadores.
Até há quem diga que há resultados manipulados de tal forma que equipas foram "levadas ao colo" dos Play-offs até as finais….
As "más línguas"dizem que o Sr. David Stern tem responsabilidades, pois aparentemente existe por parte da liga interesse em que certas equipas se defrontem nas NBA Finals, exemplo da final de este ano entre os Lakers vs Celtics.
Certo é, que os Lakers foram beneficiados num lance chave no jogo contra os Spurs na final de conferencia de 2008…e pelos vistos também o foram em 2002.

Mais certo é ainda, que o ex-arbitro da NBA “Tim Donaghy” vai passar 15 meses na cadeia, por ter deixado que as “apostas”e os “apostadores” viciassem a sua performance enquanto árbitro…
Este Sr. árbitro admitiu que prejudicou a NBA….admitiu também que desta forma envergonhou a sua classe profissional, os seus familiares e a si mesmo….

Falta uma grande formação ética aos árbitros…e a quase todos os agentes que entrevêem no fenómeno desportivo….